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Joana Mafalda Faria e Rocha
A Casa de N. S. da Aurora, Ponte de Lima: Análise histórico-formal
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Universidade do Minho Escola de Arquitectura
outubro de 2017
Dissertação de Mestrado Ciclo de Estudos Integrados Conducentes ao Grau de Mestre em Arquitectura Cultura Arquitectónica
Trabalho efetuado sob a orientação do Doutor Jorge Manuel Simão Correia
Joana Mafalda Faria e Rocha
A Casa de N. S. da Aurora, Ponte de Lima: Análise histórico-formal
Universidade do Minho Escola de Arquitectura
Aos meus pais À minha avó Ao professor Arq. Jorge Correia À Dra. Rosário de Sá Coutinho À Adriana, ao André, ao Cristiano, ao Carlos, à Francisca, ao Jorge e à Tânia À restante família Aos amigos e a todos os que de alguma forma contribuíram para a elaboração desta dissertação.
Resumo A Casa de Nossa Senhora da Aurora, em Ponte de Lima, foi fundada no século XVIII pela mão dos Sá Coutinho Rebelo Sotto Maior. Apesar do edifício ter nessa altura ganho destaque e valor patrimonial, pelo facto de passar a estar associado a uma família de relevo no panorama social nacional, a sua história começou bastante antes. Entre o final do século XVI e meados do século XVII terá tido lugar a construção primitiva, que funcionaria como habitação secundária para as freiras do Convento de Val de Pereiras que, por ser distante de Ponte de Lima, não permitia que a viagem de ida e volta fosse feita no mesmo dia, obrigando-as por isso a pernoitar no Paço construído na Vila. Tais vivências e alterações não se encontram documentadas, nem sequer referidas, já que a Casa de Nossa Senhora da Aurora nunca havia sido alvo de estudo. Os processos de análise e interpretação realizados nesta dissertação visam colmatar essa lacuna, pondo a descoberto a história construtiva do objecto de estudo. O processo condutor do trabalho enquadrou cada uma das fases construtivas num período histórico-artístico, reconstituindo-as posteriormente, segundo a morfologia que as caracterizou em cada período. O constante cruzamento dos dados recolhidos culminou no traçar de uma linha cronológica que enquadra o edifício, desde a sua fundação, até ao presente. Do estudo dos momentos construtivos do conjunto, resultaram ainda as análises métricas, quer em planimetria, quer em secção, que constituem um elemento essencial para a discussão da autoria do projecto de ampliação do século XVIII. Numa parte final, a reinterpretação das teorias que têm atribuído a autoria do desenho da Casa de Nossa Senhora da Aurora ao arquitecto vianense Manuel Pinto de Vilalobos pretende contribuir para o valor patrimonial do objecto, assim como ser uma ferramenta de investigação que permita continuar o estudo sobre as obras deste e de outros arquitectos da época, cuja obra não se encontre bem documentada.
Abstract The house of Our Mother of Aurora, in Ponte de Lima, was created in the 18th century by the Sá Coutinho Rebelo Souto Maior. Even though the building has become more known and valued by that time, for the fact that it was connected to a well known family, its history had started long before. Somewhere between the ending of the 16th century and the middle of the 17th century, the first construction has taken place. It would have worked as a secondary house for the nuns from the nunnery of Val de Pereiras that, because of its distance to the village of Ponte de Lima, wouldn’t allow the nuns to go to the village and return in a single day. This experiences and changes are not documented, nor referred, since the house of Our Mother of Aurora has never been studied before. The analytic processes developed throughout the thesis aim to fulfil that gap, discovering the constructive history of the object. The working process has framed each of the constructive phases in an historical period, reconstituting them later as they were in each of its periods. The constant crossing of the gathered data has culminated in the drawing of a chronological line that frames the building from its foundation, up to the present. From the study of all the constructive moments of the building, resulted the metrics analysis, in plan, and in section, which represent a crucial element for the discussion behind the author of the 18th century project. Finally, the reinterpretation of the theories that have been attributing the authorship of the project of the house of Our Mother of Aurora to the architect Manuel Pinto de Vilalobos aims to contribute for the patrimonial value of the house, as for being an investigation tool that allows the continuation of the study about this and other architects from his time, whose work is not documented.
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Índice Motivações 15 Metodologia 19 O Objecto de Estudo 23 Capítulo I _Do Estado Actual 29 O Arquivo 31 _Do Passado – Fontes escritas e visuais 33 _Do Presente – Levantamentos métrico e fotográfico 39 O Lugar 53 _De Ponte de Lima 55 A Aurora 63 _Da Família e do Povo 65 _Da Casa de Nossa Senhora da Aurora: 73 - A Implantação 73 - O Objecto 81 - A Capela de Nossa Senhora da Aurora 87 Capítulo II _Do Processo Evolutivo 89 O Método Interpretativo 91 1. A Ligação a Val de Pereiras 99 _Preâmbulo 99 _Enquadramento 101 1.1. Fundação 113 _Observação 113 _Interpretação 117
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1.2. Ampliação 123 _ Observação 123 _ Interpretação 129 2. A Casa de Nossa Senhora da Aurora 139 _Enquadramento 139 2.1. Casa e Capela 151 _ Observação 151 _ Interpretação 159 2.2. Conexão 169 _ Observação 169 _ Interpretação 173 3. A Manutenção 175 _Enquadramento 175 _Interpretação 181 Síntese Cronológica 184 Capítulo III _Da Questão Autoral 187 Manuel Pinto de Vilalobos 195 O Palácio Urbano no Minho – sécs. XVII e XVIII 207 Teoria Propositiva 221 Síntese Final 233 Bibliografia 237 _Fontes Manuscritas 237 _Fontes Impressas 237 _Monografias/Estudos 239 _Publicações Académicas 245 Índice de Imagens 247 Índice de Anexos 255
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Fig.1: Esquisso de um portal e janela de sacada da Casa de Nossa Senhora da Aurora
_Do Estado Actual
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“O passado não volta. Importantes são a continuidade e o perfeito conhecimento da sua história.”1 1 BOBARDI, Lina
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Motivações Nas últimas décadas, a arquitectura civil portuguesa tem vindo a ser alvo de variados estudos compilatórios, como é o caso das obras de Carlos de Azevedo2, Anne de Stoop3 ou Helder Carita4. No entanto, e apesar da sua importância, privilegiam sobretudo o estudo de casas-tipo, consideradas as mais representativas de uma determinada época ou de um modo de construir, criando lacunas no estudo de casos mais anónimos. “O estudo das inúmeras obras disseminadas pelo território nacional apresenta dificuldades resultantes da falta de estudos monográficos”5. A importância do conhecimento de obras menos centrais passa, em primeiro lugar, pelo contributo que apresentam para o saber das vivências de um lugar. Ainda que, muitas vezes, determinadas construções não sejam de valor considerável no panorama nacional pela existência de outras mais significativas, adquirem relevância na dimensão da localidade onde se inserem, representando as vivências de famílias importantes da região e albergando, ainda hoje, no seu interior, marcas da história do local. Por outro lado, quanto maior for o número de estudos monográficos efectuados, mais sólidas e verosímeis serão as bases para a realização de estudos síntese de caracterização da arquitectura nacional. No contexto da arquitectura civil, interessa a este trabalho o modelo particular da casa senhorial. A habitação da nobreza é, desde as primeiras civilizações, uma representação do estatuto social dos seus senhores, traduzindo-se a sua riqueza na dimensão do seu palácio. No entanto, apesar desta ligação a figuras de poder nas suas épocas, muitas destas construções não se encontram fundamentadas por documentação original nem foram, até hoje, alvo de estudos que permitam perceber quais foram as intenções que, num tempo, levaram à sua edificação. “A casa nobre é, de facto, uma entidade pouco conhecida na nossa arquitectura e, ameaçada como está – tal como a casa urbana 2 AZEVEDO (1988) 3 STOOP (2015) 4 CARITA (2015) 5 PEREIRA (1992), p.166
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– pelo camartelo da destruição, importa dá-la a conhecer.”6 A Casa de Nossa Senhora da Aurora surge neste quadro. Do lugar onde se implanta, Ponte de Lima, sabe-se que “a facilidade de construir livremente em terra própria sem necessidade de requerer licenças a entidades públicas, e a falta de plantas e desenhos de arquitectura, tornam o estudo da arquitectura civil assaz difícil.”7 A análise desta obra pretende , através da realização de um levantamento arquitectónico e do estudo da evolução morfológica do edifício, contribuir para o entendimento da casa nobre como um objecto em constante mutação, que se vai adaptando, na maior parte dos casos, a gentes e desígnios. Indispensável para o entendimento da evolução arquitectónica do conjunto, é o cruzamento com a história, do País, e mais especificamente do local. Utilizando os conhecimentos históricos na tentativa de entender vontades e formas de construir de várias épocas, esta dissertação pretende contribuir para o saber relativo a uma casa, a uma família, a um lugar, e finalmente, a um País. Indissociável de uma maneira de construir, é o responsável pela obra. Mais uma vez, alguns arquitectos foram já alvo de estudo como é o caso de Manuel Pinto de Vilalobos, visado pelo trabalho de Miguel Soromenho8, ou Manuel Fernandes da Silva, cujo percurso foi aprofundado por Manuel Joaquim Moreira da Rocha9 . No entanto, a falta de estudos monográficos referida anteriormente, aliada à inexistência de documentação da época, não permite muitas vezes certezas quanto à autoria de determinadas obras. É este o caso da Casa de Nossa Senhora da Aurora. O seu desenho tem vindo a ser atribuído, por desígnio popular, a Vilalobos, carecendo no entanto de comprovação por via de um estudo de pormenor. Através das conclusões retiradas de toda a análise efectuada ao longo da dissertação, a intenção final será a averiguação da autoria do desenho do objecto de estudo. 6 AZEVEDO (1988), p. 11 7 PAIVA (2006-2007), p.438 8 SOROMENHO (1991) 9 ROCHA (1996)
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Fig 2: Processo do Levantamento métrico
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Metodologia Esta dissertação dividir-se-á em três partes distintas, correspondentes a cada um dos capítulos. Numa primeira parte, Do Estado Actual, procura-se expor o estado do conhecimento actual do objecto e do meio onde o mesmo se insere; na segunda fase, Do Processo Evolutivo, o objectivo será o de perceber a evolução morfológica do objecto e de enquadrar culturalmente as diversas fases construtivas que lhe dizem respeito; no terceiro e último capítulo, Da Questão Autoral, serão levantadas e analisadas as questões relativas à autoria do projecto da Casa de Nossa Senhora da Aurora. A organização do trabalho procura um cruzamento constante entre momentos informativos, analíticos e interpretativos, conseguindo desta forma sustentar toda a especulação com bases teóricas resultantes de processos de investigação exaustivos. Indispensável à análise, é a recolha de documentos escritos e visuais, assim como de testemunhos orais. Do confronto entre os dados recolhidos e as marcas visíveis no edifício, têm início as considerações acerca da história do edifício. Transversais e essenciais a todas as fases do trabalho são os levantamentos métrico e fotográfico, também eles produção original deste estudo. O levantamento métrico do edifício pode mesmo considerar-se o documento mais importante para a realização de toda a investigação. Através do método de triangulação, foram feitas medições rigorosas de todas os espaços, quer horizontal, quer verticalmente, resultando na produção de plantas, cortes e alçados, que retratam de forma actual a espacialidade do conjunto. O retrato Do Estado Actual do edifício tem lugar no primeiro capítulo. Este primeiro momento constituí a fase mais analítica de todo o estudo, suportando-se na bibliografia recolhida e na análise visual efectuada para contextualizar a Casa de Nossa Senhora da Autora. O objectivo é o de criar, numa fase inicial do estudo, bases acerca do local, da família, ou da documentação existente, que permitam, nas fases sucessivas uma especulação fundamentada. O segundo capítulo, Do Processo Evolutivo, desenvolve-se segundo uma vertente analítica e, sucessivamente, interpretativa. Em primeiro lugar, a análise visual do objecto de estudo permite enquadrá-lo em tempos que são posteriormente estudados, do ponto de vista do panorama social e
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arquitectónico nacional. com recurso ao exemplo de obras consideradas relevantes. De seguida, são cruzados os dados resultantes de todas as análises realizadas desde o início do trabalho, com o objectivo de aferir com rigor quais terão sido as diversas fases construtivas da casa. Serão tidos em conta os documentos resultantes da recolha bibliográfica, sejam publicações ou documentos originais dos arquivos consultados, o contexto cultural e arquitectónico, quer nacional, quer local, as obras consideradas exemplares na fase analítica, e a análise dos levantamentos métrico e fotográfico. A compreensão de todos os dados teóricos, juntamente com a comparação com outras obras da época e a identificação de marcas, quer nos levantamentos métrico e fotográfico, quer pela inspeção visual do edifício, culminarão na reconstituição bidimensional e tridimensional daquela que terá sido a conformação do edifício em cada uma das suas fases construtivas. No final, será elaborada uma linha cronológica onde ser perceba claramente a evolução morfológica do conjunto ao longo do tempo. Na terceira e última parte do trabalho, os processos complementam-se mais uma vez, procurando clarificar as dúvidas Da Questão Autoral. O cruzamento entre as análises teóricas relativas a Manuel Pinto de Vilalobos, à arquitectura senhorial no Minho de Portugal nos séculos XVII e XVIII, e a evolução artística da Casa de Nossa Senhora da Aurora ao longo dos tempos, em conjunto com a análise comparativa entre a métrica do objecto de estudo e a de um exemplo seleccionado, permitirá aferir a autoria do risco da Casa de Nossa Senhora da Aurora.
Fig 3: Ortofotomapa de Ponte de Lima com localização da Casa e Quinta de Nossa Senhora da Aurora
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Casa de Nossa Senhora da Aurora
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Nem sempre o conjunto estudado teve a designação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, tendo em conta que a mesma deriva da dedicação da sua capela privada, capela esta que apenas terá sido edificada no século XVIII. Visto que, até à realização deste trabalho, o passado construtivo do edifício não havia sido estudado e era por isso desconhecido, os termos utilizados para referir o edifício nas várias fontes bibliográficas, dizem sempre respeito ao período após o século XVIII. É possível que, em referências utilizadas neste trabalho, se leia o objecto como “Casa de Nossa Senhora da Aurora”, “Casa do Arrabalde”, “Casa de Nossa Senhora de Aurora”, “Casa d’Aurora”, ou “Casa do Conde de Aurora”. Por nos parecer que todos surgem da devoção a Nossa Senhora da Aurora, e por ser esse o nome correcto da devoção, o título por nós utilizado ao longo desta dissertação será sempre o de “Casa de Nossa Senhora da Aurora”. A edificação do conjunto actual pode dividir-se em três grandes tempos. A fundação e posterior ampliação do edifício, terão tido lugar durante os séculos XVI e XVII, em contexto monástico, pela Ligação a Val de Pereiras que o edifício possuía. Nesta altura terá sido construído como local de apoio ao Convento de Val de Pereiras, que, pela distância a Ponte de Lima, não permitia o regresso das freiras ao convento num só dia, quando se deslocavam à vila. Pernoitavam pois no conjunto em estudo. Já no século XVIII, teve lugar a construção da Casa De Nossa Senhora da Aurora, com a compra dos terrenos por parte da família dos Sá Coutinho Rebelo Sotto Maior. Patrocinados pelo ouro do Brasil, levaram a cabo a maior reforma da história do conjunto, num gesto que se crê desenhado pelo arquitecto Vianense Manuel Pinto de Vilalobos. Por fim, nos séculos XIX e XX as obras de Manutenção tomaram lugar, não se registando mais nenhuma intervenção de fundo no objecto. O período de maior destaque do conjunto terá sido certamente aquele que sucedeu à criação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, funcionando como habitação permanente dos sucessivos Condes de Aurora e suas famílias. Situado em Ponte de Lima, na rua do Arrabalde, a sua posição geográfica próxima do
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Fig 8: Esquisso do alçado Sul da Casa de Nossa Senhora da Aurora
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burgo constituiu um dos aspectos de maior relevância, caracterizando-o e às suas gentes como parte de um ambiente perfeitamente urbano. Pelo valor patrimonial que apresenta, foi classificada como imóvel de interesse público a 29 de Setembro de 1977. Actualmente recebe visitas ocasionais de grupos de curiosos, que a proprietária faz questão de guiar e clarificar sobre o pouco que é sabido relativamente ao edifício. Tal como grande parte do património construído português, sobre esta obra pesa o facto de nunca ter sido alvo de estudo integrado.
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_Do Estado Actual
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Capítulo I _Do Estado Actual
_Do Estado Actual
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Fig 9: Fotografia do 1º Livro das Correias
Cronologia Visual de Fontes Primárias
Relativos ao período entre 1602 e 1715, são sete os títulos de compra de terrenos e casas no Arrabalde por parte da família dos Sá Coutinho Rebello Sotto Maior que
sobreviveram até aos dias de hoje. Em cima, três exemplos de compras entre 1703 e 1704 que parecem indicar os terrenos onde viria a ser construída a Casa de Nossa
Senhora da Aurora
O século XIX encontra-se bastante bem documentado por fontes visuais. De entre elas, o destaque vai para as
representações da frontaria da Casa e da pedra de armas, de 1839 e 1840, e os desenhos para o projecto do jardim
inglês, de 1875. Encontram-se ambos em excelente estado de conservação.
1703
1704
1723
1839
1840
1875
_Do Estado Actual
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_Do passado – Fontes escritas e visuais O espólio documental existente, acerca da Casa de Nossa Senhora da Aurora, é bastante vasto e disperso temporalmente. As fontes encontram-se sob a forma de registos escritos e visuais por entre dezenas de publicações e documentos do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, do Arquivo Privado da Casa de Nossa Senhora da Aurora e do Arquivo Distrital de Braga. O arquivo da casa é o mais significativo pela quantidade de documentos que alberga já que a família foi guardando todos os registos da actividade das diversas gerações. Embora exista apenas um documento que refira em concreto a construção de uma parte do conjunto, e outros tantos que mencionem alterações construtivas de pequena dimensão, as fontes existentes permitem uma especulação sustentada daquela que terá sido a história do edifício, assim como da sua contextualização na vila de Ponte de Lima. Para a elaboração deste trabalho serão tidos em conta todos os documentos que, referindo ou não de forma direta o objecto em estudo, permitem enquadrá-lo em épocas específicas, quer de forma imediata, quer por possibilitarem a comparação com objectos semelhantes. Das referências escritas interessam fontes manuscritas, monografias, e qualquer estudo efetuado, quer sobre a Casa de Nossa Senhora da Aurora, quer sobre a casa nobre em Portugal ou sobre a Vila de Ponte de Lima. Quanto a referências visuais, têm-se como válidas as representações de elementos relativos ao conjunto edificado ou à Vila de Ponte de Lima. Da vila destaca-se a carta topográfica de 192711. Tendo em conta o “anonimato” do conjunto, antes do período de edificação da Casa da Aurora, os documentos relativos a essa época são bastante escassos. O destaque vai para um mapa de Amélia Aguiar de Andrade12 onde são identificadas as “propriedades no reguengo régio” em Ponte de Lima. A análise de todas as fontes existentes, diretas ou indiretas, permite a construção de uma linha cronológica documental dividida em três grandes tempos. Um primeiro, desde 1602, até 1715, abrange sete títulos de compra 11 Embora se saiba que existiu uma planta topográfica anterior, de 1911, a de 1927 é o registo topográfico da Vila de Ponte de Lima mais antigo na posse do Arquivo Municipal. 12 ANDRADE (1990), p. 95
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_Do Estado Actual
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originais de terrenos e casas no Arrabalde, por parte da família dos Sá Coutinho Rebelo Sotto Maior. É exemplo a “Compra de João de Sá Sotto Maior a António Gonçalves Campos, e ao Pe. António de Azevedo Gama de casas, devesas e lugar em que viviam no Arrabalde por 255.000”13 (Anexo II). Estes registos constituem a primeira ligação documentada entre a família que viria a ser responsável pela criação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, e os terrenos onde o edifício ganharia forma. Do segundo tempo, são consideradas as fontes que referem a construção do edifício da Casa de Nossa Senhora da Aurora e sua Capela. A edificação do bloco habitacional não se encontra sustentada por fontes primárias, no entanto, são várias as monografias que referem o conjunto. “Uma e outra foram mandados fabricar em 1714 a 1718, sem embargo da data erradamente retocada a ouro sobre azul na inscrição que coroa a portada.”14 Quanto à Capela, representa a única construção de todo o conjunto, desde a sua fundação, comprovada através de uma fonte manuscrita, a “Obrigação à fábrica da capela de Nossa Senhora de Aurora no Arrabalde, a favor do Desembargador João de Sá Soto Maior”15 (Anexo I), documento original de 1723. Ambas as fontes contextualizam o momento construtivo vivido no início do século XVIII. O período dotado de um legado documental mais vasto diz respeito ao século XIX. Sem data específica, estando apenas referenciado como pertencente ao século XIX, o Arquivo privado da casa guarda o “Autto de vedoria atombação e medição e apregação e comfrontação e demarcação desta caza e quinta de Nossa Senhora d’Aurora sita no Arrabalde de São João de Fora desta villa de Ponte do Lima”16. Este documento foi originalmente transcrito para linguagem actual e suporte digital no decorrer da presente investigação (Anexo III). Constitui uma das fontes mais relevantes para o processo de trabalho já que descreve pormenorizadamente a conformação de todo o edifício à época, algo que, tendo em conta a falta de documentos que atestem intervenções construtivas no objecto, confirma os volumes que estariam já edificados em tal tempo. Também 13 Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora. Ponte do Lima: Compras, nº6. 14 LEMOS (1977), p. 106 15 UM-ADB: Mitra Arquiepiscopal de Braga 16 Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora. Ponte do Lima: Vínculos, nº 49
_Do Estado Actual
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no Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora se encontra o “Requerimento e emb.º feito a uma portada e aberta de parede que fez D. Maria Joanna de Sá Coutinho na sua quinta do Arrabalde”17, de 1802, e único registo escrito de alterações feitas ao conjunto edificado. Igualmente relevantes no contexto do século XIX são as fontes visuais. Entre molduras suspensas nas paredes dos salões nobres e folhas de rosto de livros dispersos pelo edifício, a Casa de Nossa Senhora da Aurora conserva ainda três gravuras originais de grande interesse. As duas primeiras, de 1837 e 1840, representam a frontaria da casa e a pedra de armas (Anexo IV e V), respectivamente, e encontram-se num estado de conservação exemplar, permitindo às cores sobressair com a vivacidade que teriam quando foram riscados. Outras duas, e mais uma vez bastante bem conservadas, mostram os desenhos originais feitos para o projecto do jardim inglês anexo à casa, de 1875 (Anexo VI). Tendo em conta a falta de documentação escrita que sirva de base incontestável à especulação sobre as diversas fases construtivas do edifício, a análise das fontes visuais é um processo indispensável já que permite a percepção da adição ou subtracção de elementos num determinado tempo. Visto que a importância patrimonial do conjunto foi resultado da edificação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, as construções anteriores praticamente não se encontram documentadas, provavelmente por, na época, não desempenharem um papel fundamental no contexto local. Também o facto de se tratar de um período anterior ao século XVIII torna a distância temporal para o presente ainda maior, o que faz com que a sobrevivência e conservação de documentação seja mais difícil e improvável, quanto maior for o recuo temporal. Como complemento das referências escritas e visuais surge agora o levantamento métrico original, realizado no âmbito desta dissertação, e que, juntamente com o levantamento fotográfico, constituí o documento de maior relevância, produzido até à data, sobre o conjunto arquitectónico em estudo. 17 Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora. Ponte do Lima: Sentenças, nº19
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38 Levantamento fotográfico: A Envolvente
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_Do presente – Levantamentos métrico e fotográfico As fontes escritas e visuais descritas no ponto anterior da dissertação constituem a prova factual, e por isso mais fidedigna, de intervenções feitas no conjunto. No entanto, e como foi referido anteriormente, nem sempre as alterações construtivas levadas a cabo foram alvo de contratos escritos ou registos, sendo hoje necessário recorrer à análise visual do edifício para a sua identificação. Para esta vertente analítica de observação concorrem dois registos, o levantamento métrico e o levantamento fotográfico, ambos realizados originalmente no decorrer da dissertação. Um e outro definem o ponto de partida do trabalho de investigação já que representam o objecto de estudo tal como existe no presente. Será a complementaridade entre a análise das marcas actuais detectadas nos levantamentos métrico e fotográfico, e as indicações encontradas nos registos escritos e visuais, que permitirá o retirar de conclusões sobre aquelas que deverão ter sido as diversas fases construtivas do conjunto edificado, e quais as alterações que correspondem a cada uma delas. Ambos os levantamentos se encontram, de forma resumida, nas páginas seguintes e completa em anexo. O levantamento métrico, realizado com recurso ao método de triangulação, é composto por cinco secções horizontais (plantas), e cinco secções verticais (cortes e alçados). Para além da representação singular do objecto de estudo, o estudo métrico procura enquadrar a Casa de Nossa Senhora da Aurora na envolvente próxima, reforçando a leitura do contexto urbano em que a mesma se insere. Assim sendo, o redor do edifício é representado em todos os desenhos de arquitectura, dando a perceber, em planta, a dicotomia entre os terrenos baldios e com poucas construções a Nordeste e a massa construída da Vila a Sudoeste, e em secção o contraste entre a frontaria da Casa que dá face à Rua do Arrabalde e a outros edifícios de habitação, e as traseiras enquadradas por terrenos agrícolas e zona de mata. Quanto às plantas, quatro são correspondentes a cada um dos pisos do edifício e registadas a 1,5m de altura em relação à cota base do piso, e uma quinta mostra a cobertura do edifício. Os registos horizontais visam mostrar a disposição dos espaços interiores, clarificando formas de viver o objecto contruído e distinguindo percursos
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Levantamento fotográfico: Os Vãos
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utilizados por senhores e por serventes. É também através da disposição dos compartimentos internos que se dá a compreensão das prioridades sociais de cada época construtiva, sendo em alguns tempos clara a vontade de virar a casa para as necessidades mais primárias dos seus habitantes, e noutros mais forte a intenção de tornar a casa num espaço virado para a recepção de pessoas de fora e o convívio. Numa análise mais detalhada, o estudo métrico das plantas põe a descoberto unidades de medida, modulações e alinhamentos utilizados como base para as construções de cada época, ajudando muitas vezes a entender noções de desenho por parte dos responsáveis pelo traço de cada uma das fases do objecto. Em adição, as diversas espessuras das paredes, registadas também em secção, podem indicar prováveis alterações efectuadas à morfologia do edificado, uma vez que a evolução das técnicas construtivas foi permitindo um adelgaçar das construções. No que diz respeito às secções verticais, para além de serem mais uma ferramenta de confirmação dos aspectos descritos anteriormente, permitem a análise altimétrica do conjunto. Por um lado, possibilitam a compreensão das relações visuais e físicas entre os diversos espaços do objecto, por outro enfatizam a relação directa entre a função e a configuração espacial dos diferentes pisos do edifício. Também estes cortes possibilitam a análise métrica do conjunto, neste caso na vertical, apurando mais uma vez intenções e noções de desenho. Se o levantamento métrico representa o estudo de rigor da Casa da Nossa Senhora da Aurora, o levantamento fotográfico procura uma análise mais intuitiva de marcas do edifício que não são, muitas vezes, passíveis de representação através de plantas, cortes e alçados. Encontra-se dividido em três partes, consideradas as de maior importância para a percepção do objecto: A Envolvente, procura mostrar todos os ambientes que rodeiam o edifício e realçar a dicotomia existente entre o exterior à cerca, urbano, e o interior da cerca, lazer e agrícola. O registo da rua que faz a frente do edifício e que traz o espírito da vila até ao local da casa, contrasta assim com os registos do jardim inglês, dos pátios e dos campos agrícolas existentes no interior da propriedade; Os Vãos, que pela análise da sua construção e dos gradeamentos que os compõem, caracterizam diferentes épocas de intervenção no conjunto. É assim apresentada uma imagem correspondente a cada tipo de vão existente na casa; O
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Levantamento fotográfico: O Objecto
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Objecto, correspondendo estas imagens à representação do edifício, quer pelo exterior, quer pelo interior. Será apresentado ora de um ponto de vista mais afastado, de forma a fazer perceber o aspecto total do conjunto, ora de um ponto de vista mais aproximado, de forma a realçar algum ponto de relevo particular para a compreensão da história do objecto.
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Levantamento Métrico
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Fig 10: Fotografia da Vila de Ponte de Lima
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O Lugar “A villa. Eil-a finalmente, coquette, adoravel, fresca, beijada pelo rio em toda a sua extensão.”18 18 VIEIRA (1886), p. 262. Acedido a 11 de Setembro 2017
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Fig 11: Representação tridimensional da muralha de Ponte de Lima. Realizado pela Universidade do Minho
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_De Ponte de Lima Não se sabe ao certo quais os povos que primitivamente ocuparam o Vale do Lima, nem em que período o fizeram. Destas primeiras ocupações as informações são muito escassas, sabendo-se apenas que “no itinerario de Antonino Pio se appellida Limia a terra que na estrada para Astorga ficava a 19 milhas de Braga, e que não podia por tanto referir-se á provincia em geral, mas a um logar determinado”19 Situada no coração do Vale do Lima, desde o século I que o lugar de Ponte de Lima vem demonstrando a sua importância no território minhoto. Foi a 4 de Março de 1125 que a Rainha D. Teresa outorgou carta de foral à Vila, chamando-lhe nessa altura de Villam nominato loco Ponte. O foral de 1125 faz com que, ainda hoje, a principal bandeira de Ponte de Lima seja o facto de ser considerada a vila mais antiga de Portugal20. É no século I, segundo a liderança do imperador Augusto, que surgem os primeiros registos de ocupação do então Forum Limicorum como ponto estratégico do Alto Minho. Com a passagem da Via Romana nº XIX, ligação entre Braga e Astorga, é construída a ponte romana, tendo funcionado durante muito tempo como único ponto de atravessamento do Rio Lima. Da estrutura deste período restam hoje sete arcos. No histórico de obras da ponte seguiu-se a intervenção do reinado de D. Dinis, no século XIV, que incluía duas torres, uma em cada flanco, inserindo a ponte no sistema defensivo da Vila. Não se verificaram mais obras de grande envergadura nesta estrutura, sendo as únicas alterações entre este período e o que vemos hoje a colocação de merlões – em 1506, ordenada por D. Manuel I –, a destruição das torres defensivas, no século XIX, e várias alterações do pavimento. A ponte sobre o rio Lima tornou-se no maior marco da vila sendo inclusive responsável pelo nome da mesma. “...uma gravura da ponte, como ella existia ainda no seu tempo (...), porque apezar da imperfeição d’esse desenho póde fazer-se uma idéa do magnífico aspecto que até 1857 apresentava esse monumento, talvez único no reino, como typo da 19 VEIRA (1886), p.269. Consultado em 11 de Setembro 2017 20 Tal tem vindo a ser desmentido nos últimos anos por historiadores que garantem que o foral de S. João da Pesqueira terá sido atribuído entre 1055 e 1065, fazendo dessa a verdadeira Vila mais antiga do país.
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56 Fig 13: Fotografia da Torre da Cadeia
Fig. 12: Fotografia da Torre de S. Paulo
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architectura militar da edade média. Constituido por vinte e quatro arcos, dezeseis ogivaes e os outros de volta redonda, terminava a ponte por duas torres quadrangulares ameiadas, uma na extremidade sul, outra no lado norte...”21 A história da ponte, e não fosse ela a principal referência da Vila, é também o melhor indicador daquela que foi a história do lugar Ponte de Lima. “Nenhum elemento da paisagem natural ou humanizada caracteriza de forma tão clara um núcleo urbano como a ponte medieval o faz em relação a Ponte de Lima”22 . Através da análise do que foi referido antes, podemos identificar períodos cruciais no desenvolvimento da vila, entre os séculos I e XIX. No século XIV, durante o reinado de D. Pedro I (1357-1367), têm então início as obras de fortificação de Ponte de Lima. Segundo Mário Barroca, a britagem de pedra para o muro terá sido iniciada a 8 de Março de 1359, muro este que terá começado a ser construído a 3 ou 6 de Julho desse mesmo ano. Entre este período e 1370, já no reinado de D. Fernando I (1367-1383), as obras estariam concluídas. “...o resultado final foi o de um burgo medieval cercado de muralhas e nove torres”23, de planta oval e que se desenvolvia por mais de um quilómetro. A ponte, tal como referido anteriormente, estava contida neste sistema defensivo através das suas duas torres. As muralhas foram mandadas construir pela posição geográfica privilegiada do burgo, tendo tido a sua época de maior importância estratégica durante o reinado de D. João I (1385-1433). Já no século XVIII, tem início a destruição da cerca. “Esvaziada de qualquer sentido militar por estratégias mais recentes, a muralha tinha-se transformado numa estrutura inútil que ensombrava ruas e casas. As suas altas e grossas paredes revelavam-se como uma cómoda fonte de obtenção de pedra bem aparelhada para a construção de edifícios públicos e privados”24. À destruição sobreviveram duas torres e uma porção de pano de muralha entre as duas, que prevalecem até aos dias de hoje: a Torre da Cadeia - nome adquirido pelas funções que desempenhou quase até aos nossos tempos -, também designada como Torre da Porta Nova – pelo troço de muralha que lhe é adjacente, onde estava localizada 21 VIEIRA (1886), p. 267. Consultado em 20 de Junho 2017 22 ANDRADE (1990), p. 13 23 Disponível em http://www.cm-pontedelima.pt/pages/533 24 ANDRADE (1990), p.14
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Fig 14: Planta do burgo no início do século XVIII. Por Amélia Aguiar Andrade
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uma das portas de entrada na cerca, e que permanece também até hoje; e a Torre de São Paulo onde hoje se veem placas assinalando o nível onde chegaram as cheias que mais afectaram a Vila, nos tempos antes da barragem: “Aqui chegou o rio pelo risco”25. Também neste local se manteve um troço do pano de muralha já que funcionava como parede de meação a habitações que foram sendo construídas e interessava à vila pela sua capacidade de impedir a entrada das cheias no maciço construído. Deste período interessa particularmente perceber aquele que foi o desenvolvimento territorial de uma localidade que começou por se implantar num local de passagem estratégico; onde surgiu um burgo que pela sua localização e capacidade comercial foi fortificado; e que séculos mais tarde, pelo crescimento verificado intramuros, se viu obrigado a destruir as cercas e a espalhar-se no território em torno. Na fase em que tem início a expansão urbana do burgo para os arrabaldes26, Ponte de Lima vive um momento particularmente próspero da sua história, no seguimento daquilo que se passava um pouco por todo o país27. A primeira metade do século XVIII, altura em que vigorava o reinado de D. João V (1706-1750), caracterizou-se no território Limiano por um forte crescimento económico. O alvo mais particular desta economia em ascensão acabaria por ser a encomenda arquitectónica, que podemos dividir em dois grupos: A encomenda pública e a encomenda privada. Se por um lado as obras públicas se encontram bastante bem documentadas28, sendo o seu estudo e interpretação possível com 25 Inscrição gótica que se pode ainda hoje ler na fachada da Torre de São Paulo que dá a face ao rio Lima 26 A expansão criou três arrabaldes: O de Santo Antonio, o de S. Joao e o de Alem da Ponte. Segundo CANDIDO, Alfredo – Casas e famílias nobres de Ponte de Lima, in Almanaque Ilustrado “O Comércio do Lima”. Ponte de Lima, 1924. Nº6, p. 271 27 O reinado de D. João V ficaria conhecido pelas suas tentativas de enaltecer a prosperidade portuguesa no estrangeiro, fazendo o país passar como uma potência internacional. Para tal contribuiu inegavelmente a descoberta de ouro no Brasil e o sucessivo período de significativa encomenda arquitectónica que se verificou pelo país. Merecedoras de destaque são obras como o Palácio de Mafra ou o Aqueduto das Águas Livres. 28 Ver a este respeito PAIVA, Maria Amélia da Silva – Os ofícios mecânicos e a encomenda arquitectónica patrocinada pela câmara de Ponte de Lima no século XVIII, 2006-2007
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Fig 15: Fotografia da Rua do Arrabalde
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relativa facilidade, o mesmo não se verifica relativamente às obras civis que, por falta de regulamentação, foram construídas sem que tenhamos acesso a documentos que permitam sequer datar com precisão a maior parte delas. A Câmara, como representante máximo do poder público local, centrava as suas preocupações na manutenção das infraestruturas existentes, promovendo questões como a acessibilidade e a segurança. De entre as intervenç
A Casa de N. S. da Aurora, Ponte de Lima: Análise histórico-formal
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Universidade do Minho Escola de Arquitectura
outubro de 2017
Dissertação de Mestrado Ciclo de Estudos Integrados Conducentes ao Grau de Mestre em Arquitectura Cultura Arquitectónica
Trabalho efetuado sob a orientação do Doutor Jorge Manuel Simão Correia
Joana Mafalda Faria e Rocha
A Casa de N. S. da Aurora, Ponte de Lima: Análise histórico-formal
Universidade do Minho Escola de Arquitectura
Aos meus pais À minha avó Ao professor Arq. Jorge Correia À Dra. Rosário de Sá Coutinho À Adriana, ao André, ao Cristiano, ao Carlos, à Francisca, ao Jorge e à Tânia À restante família Aos amigos e a todos os que de alguma forma contribuíram para a elaboração desta dissertação.
Resumo A Casa de Nossa Senhora da Aurora, em Ponte de Lima, foi fundada no século XVIII pela mão dos Sá Coutinho Rebelo Sotto Maior. Apesar do edifício ter nessa altura ganho destaque e valor patrimonial, pelo facto de passar a estar associado a uma família de relevo no panorama social nacional, a sua história começou bastante antes. Entre o final do século XVI e meados do século XVII terá tido lugar a construção primitiva, que funcionaria como habitação secundária para as freiras do Convento de Val de Pereiras que, por ser distante de Ponte de Lima, não permitia que a viagem de ida e volta fosse feita no mesmo dia, obrigando-as por isso a pernoitar no Paço construído na Vila. Tais vivências e alterações não se encontram documentadas, nem sequer referidas, já que a Casa de Nossa Senhora da Aurora nunca havia sido alvo de estudo. Os processos de análise e interpretação realizados nesta dissertação visam colmatar essa lacuna, pondo a descoberto a história construtiva do objecto de estudo. O processo condutor do trabalho enquadrou cada uma das fases construtivas num período histórico-artístico, reconstituindo-as posteriormente, segundo a morfologia que as caracterizou em cada período. O constante cruzamento dos dados recolhidos culminou no traçar de uma linha cronológica que enquadra o edifício, desde a sua fundação, até ao presente. Do estudo dos momentos construtivos do conjunto, resultaram ainda as análises métricas, quer em planimetria, quer em secção, que constituem um elemento essencial para a discussão da autoria do projecto de ampliação do século XVIII. Numa parte final, a reinterpretação das teorias que têm atribuído a autoria do desenho da Casa de Nossa Senhora da Aurora ao arquitecto vianense Manuel Pinto de Vilalobos pretende contribuir para o valor patrimonial do objecto, assim como ser uma ferramenta de investigação que permita continuar o estudo sobre as obras deste e de outros arquitectos da época, cuja obra não se encontre bem documentada.
Abstract The house of Our Mother of Aurora, in Ponte de Lima, was created in the 18th century by the Sá Coutinho Rebelo Souto Maior. Even though the building has become more known and valued by that time, for the fact that it was connected to a well known family, its history had started long before. Somewhere between the ending of the 16th century and the middle of the 17th century, the first construction has taken place. It would have worked as a secondary house for the nuns from the nunnery of Val de Pereiras that, because of its distance to the village of Ponte de Lima, wouldn’t allow the nuns to go to the village and return in a single day. This experiences and changes are not documented, nor referred, since the house of Our Mother of Aurora has never been studied before. The analytic processes developed throughout the thesis aim to fulfil that gap, discovering the constructive history of the object. The working process has framed each of the constructive phases in an historical period, reconstituting them later as they were in each of its periods. The constant crossing of the gathered data has culminated in the drawing of a chronological line that frames the building from its foundation, up to the present. From the study of all the constructive moments of the building, resulted the metrics analysis, in plan, and in section, which represent a crucial element for the discussion behind the author of the 18th century project. Finally, the reinterpretation of the theories that have been attributing the authorship of the project of the house of Our Mother of Aurora to the architect Manuel Pinto de Vilalobos aims to contribute for the patrimonial value of the house, as for being an investigation tool that allows the continuation of the study about this and other architects from his time, whose work is not documented.
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Índice Motivações 15 Metodologia 19 O Objecto de Estudo 23 Capítulo I _Do Estado Actual 29 O Arquivo 31 _Do Passado – Fontes escritas e visuais 33 _Do Presente – Levantamentos métrico e fotográfico 39 O Lugar 53 _De Ponte de Lima 55 A Aurora 63 _Da Família e do Povo 65 _Da Casa de Nossa Senhora da Aurora: 73 - A Implantação 73 - O Objecto 81 - A Capela de Nossa Senhora da Aurora 87 Capítulo II _Do Processo Evolutivo 89 O Método Interpretativo 91 1. A Ligação a Val de Pereiras 99 _Preâmbulo 99 _Enquadramento 101 1.1. Fundação 113 _Observação 113 _Interpretação 117
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1.2. Ampliação 123 _ Observação 123 _ Interpretação 129 2. A Casa de Nossa Senhora da Aurora 139 _Enquadramento 139 2.1. Casa e Capela 151 _ Observação 151 _ Interpretação 159 2.2. Conexão 169 _ Observação 169 _ Interpretação 173 3. A Manutenção 175 _Enquadramento 175 _Interpretação 181 Síntese Cronológica 184 Capítulo III _Da Questão Autoral 187 Manuel Pinto de Vilalobos 195 O Palácio Urbano no Minho – sécs. XVII e XVIII 207 Teoria Propositiva 221 Síntese Final 233 Bibliografia 237 _Fontes Manuscritas 237 _Fontes Impressas 237 _Monografias/Estudos 239 _Publicações Académicas 245 Índice de Imagens 247 Índice de Anexos 255
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Fig.1: Esquisso de um portal e janela de sacada da Casa de Nossa Senhora da Aurora
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“O passado não volta. Importantes são a continuidade e o perfeito conhecimento da sua história.”1 1 BOBARDI, Lina
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Motivações Nas últimas décadas, a arquitectura civil portuguesa tem vindo a ser alvo de variados estudos compilatórios, como é o caso das obras de Carlos de Azevedo2, Anne de Stoop3 ou Helder Carita4. No entanto, e apesar da sua importância, privilegiam sobretudo o estudo de casas-tipo, consideradas as mais representativas de uma determinada época ou de um modo de construir, criando lacunas no estudo de casos mais anónimos. “O estudo das inúmeras obras disseminadas pelo território nacional apresenta dificuldades resultantes da falta de estudos monográficos”5. A importância do conhecimento de obras menos centrais passa, em primeiro lugar, pelo contributo que apresentam para o saber das vivências de um lugar. Ainda que, muitas vezes, determinadas construções não sejam de valor considerável no panorama nacional pela existência de outras mais significativas, adquirem relevância na dimensão da localidade onde se inserem, representando as vivências de famílias importantes da região e albergando, ainda hoje, no seu interior, marcas da história do local. Por outro lado, quanto maior for o número de estudos monográficos efectuados, mais sólidas e verosímeis serão as bases para a realização de estudos síntese de caracterização da arquitectura nacional. No contexto da arquitectura civil, interessa a este trabalho o modelo particular da casa senhorial. A habitação da nobreza é, desde as primeiras civilizações, uma representação do estatuto social dos seus senhores, traduzindo-se a sua riqueza na dimensão do seu palácio. No entanto, apesar desta ligação a figuras de poder nas suas épocas, muitas destas construções não se encontram fundamentadas por documentação original nem foram, até hoje, alvo de estudos que permitam perceber quais foram as intenções que, num tempo, levaram à sua edificação. “A casa nobre é, de facto, uma entidade pouco conhecida na nossa arquitectura e, ameaçada como está – tal como a casa urbana 2 AZEVEDO (1988) 3 STOOP (2015) 4 CARITA (2015) 5 PEREIRA (1992), p.166
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– pelo camartelo da destruição, importa dá-la a conhecer.”6 A Casa de Nossa Senhora da Aurora surge neste quadro. Do lugar onde se implanta, Ponte de Lima, sabe-se que “a facilidade de construir livremente em terra própria sem necessidade de requerer licenças a entidades públicas, e a falta de plantas e desenhos de arquitectura, tornam o estudo da arquitectura civil assaz difícil.”7 A análise desta obra pretende , através da realização de um levantamento arquitectónico e do estudo da evolução morfológica do edifício, contribuir para o entendimento da casa nobre como um objecto em constante mutação, que se vai adaptando, na maior parte dos casos, a gentes e desígnios. Indispensável para o entendimento da evolução arquitectónica do conjunto, é o cruzamento com a história, do País, e mais especificamente do local. Utilizando os conhecimentos históricos na tentativa de entender vontades e formas de construir de várias épocas, esta dissertação pretende contribuir para o saber relativo a uma casa, a uma família, a um lugar, e finalmente, a um País. Indissociável de uma maneira de construir, é o responsável pela obra. Mais uma vez, alguns arquitectos foram já alvo de estudo como é o caso de Manuel Pinto de Vilalobos, visado pelo trabalho de Miguel Soromenho8, ou Manuel Fernandes da Silva, cujo percurso foi aprofundado por Manuel Joaquim Moreira da Rocha9 . No entanto, a falta de estudos monográficos referida anteriormente, aliada à inexistência de documentação da época, não permite muitas vezes certezas quanto à autoria de determinadas obras. É este o caso da Casa de Nossa Senhora da Aurora. O seu desenho tem vindo a ser atribuído, por desígnio popular, a Vilalobos, carecendo no entanto de comprovação por via de um estudo de pormenor. Através das conclusões retiradas de toda a análise efectuada ao longo da dissertação, a intenção final será a averiguação da autoria do desenho do objecto de estudo. 6 AZEVEDO (1988), p. 11 7 PAIVA (2006-2007), p.438 8 SOROMENHO (1991) 9 ROCHA (1996)
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Fig 2: Processo do Levantamento métrico
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Metodologia Esta dissertação dividir-se-á em três partes distintas, correspondentes a cada um dos capítulos. Numa primeira parte, Do Estado Actual, procura-se expor o estado do conhecimento actual do objecto e do meio onde o mesmo se insere; na segunda fase, Do Processo Evolutivo, o objectivo será o de perceber a evolução morfológica do objecto e de enquadrar culturalmente as diversas fases construtivas que lhe dizem respeito; no terceiro e último capítulo, Da Questão Autoral, serão levantadas e analisadas as questões relativas à autoria do projecto da Casa de Nossa Senhora da Aurora. A organização do trabalho procura um cruzamento constante entre momentos informativos, analíticos e interpretativos, conseguindo desta forma sustentar toda a especulação com bases teóricas resultantes de processos de investigação exaustivos. Indispensável à análise, é a recolha de documentos escritos e visuais, assim como de testemunhos orais. Do confronto entre os dados recolhidos e as marcas visíveis no edifício, têm início as considerações acerca da história do edifício. Transversais e essenciais a todas as fases do trabalho são os levantamentos métrico e fotográfico, também eles produção original deste estudo. O levantamento métrico do edifício pode mesmo considerar-se o documento mais importante para a realização de toda a investigação. Através do método de triangulação, foram feitas medições rigorosas de todas os espaços, quer horizontal, quer verticalmente, resultando na produção de plantas, cortes e alçados, que retratam de forma actual a espacialidade do conjunto. O retrato Do Estado Actual do edifício tem lugar no primeiro capítulo. Este primeiro momento constituí a fase mais analítica de todo o estudo, suportando-se na bibliografia recolhida e na análise visual efectuada para contextualizar a Casa de Nossa Senhora da Autora. O objectivo é o de criar, numa fase inicial do estudo, bases acerca do local, da família, ou da documentação existente, que permitam, nas fases sucessivas uma especulação fundamentada. O segundo capítulo, Do Processo Evolutivo, desenvolve-se segundo uma vertente analítica e, sucessivamente, interpretativa. Em primeiro lugar, a análise visual do objecto de estudo permite enquadrá-lo em tempos que são posteriormente estudados, do ponto de vista do panorama social e
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arquitectónico nacional. com recurso ao exemplo de obras consideradas relevantes. De seguida, são cruzados os dados resultantes de todas as análises realizadas desde o início do trabalho, com o objectivo de aferir com rigor quais terão sido as diversas fases construtivas da casa. Serão tidos em conta os documentos resultantes da recolha bibliográfica, sejam publicações ou documentos originais dos arquivos consultados, o contexto cultural e arquitectónico, quer nacional, quer local, as obras consideradas exemplares na fase analítica, e a análise dos levantamentos métrico e fotográfico. A compreensão de todos os dados teóricos, juntamente com a comparação com outras obras da época e a identificação de marcas, quer nos levantamentos métrico e fotográfico, quer pela inspeção visual do edifício, culminarão na reconstituição bidimensional e tridimensional daquela que terá sido a conformação do edifício em cada uma das suas fases construtivas. No final, será elaborada uma linha cronológica onde ser perceba claramente a evolução morfológica do conjunto ao longo do tempo. Na terceira e última parte do trabalho, os processos complementam-se mais uma vez, procurando clarificar as dúvidas Da Questão Autoral. O cruzamento entre as análises teóricas relativas a Manuel Pinto de Vilalobos, à arquitectura senhorial no Minho de Portugal nos séculos XVII e XVIII, e a evolução artística da Casa de Nossa Senhora da Aurora ao longo dos tempos, em conjunto com a análise comparativa entre a métrica do objecto de estudo e a de um exemplo seleccionado, permitirá aferir a autoria do risco da Casa de Nossa Senhora da Aurora.
Fig 3: Ortofotomapa de Ponte de Lima com localização da Casa e Quinta de Nossa Senhora da Aurora
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3
Casa de Nossa Senhora da Aurora
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Nem sempre o conjunto estudado teve a designação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, tendo em conta que a mesma deriva da dedicação da sua capela privada, capela esta que apenas terá sido edificada no século XVIII. Visto que, até à realização deste trabalho, o passado construtivo do edifício não havia sido estudado e era por isso desconhecido, os termos utilizados para referir o edifício nas várias fontes bibliográficas, dizem sempre respeito ao período após o século XVIII. É possível que, em referências utilizadas neste trabalho, se leia o objecto como “Casa de Nossa Senhora da Aurora”, “Casa do Arrabalde”, “Casa de Nossa Senhora de Aurora”, “Casa d’Aurora”, ou “Casa do Conde de Aurora”. Por nos parecer que todos surgem da devoção a Nossa Senhora da Aurora, e por ser esse o nome correcto da devoção, o título por nós utilizado ao longo desta dissertação será sempre o de “Casa de Nossa Senhora da Aurora”. A edificação do conjunto actual pode dividir-se em três grandes tempos. A fundação e posterior ampliação do edifício, terão tido lugar durante os séculos XVI e XVII, em contexto monástico, pela Ligação a Val de Pereiras que o edifício possuía. Nesta altura terá sido construído como local de apoio ao Convento de Val de Pereiras, que, pela distância a Ponte de Lima, não permitia o regresso das freiras ao convento num só dia, quando se deslocavam à vila. Pernoitavam pois no conjunto em estudo. Já no século XVIII, teve lugar a construção da Casa De Nossa Senhora da Aurora, com a compra dos terrenos por parte da família dos Sá Coutinho Rebelo Sotto Maior. Patrocinados pelo ouro do Brasil, levaram a cabo a maior reforma da história do conjunto, num gesto que se crê desenhado pelo arquitecto Vianense Manuel Pinto de Vilalobos. Por fim, nos séculos XIX e XX as obras de Manutenção tomaram lugar, não se registando mais nenhuma intervenção de fundo no objecto. O período de maior destaque do conjunto terá sido certamente aquele que sucedeu à criação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, funcionando como habitação permanente dos sucessivos Condes de Aurora e suas famílias. Situado em Ponte de Lima, na rua do Arrabalde, a sua posição geográfica próxima do
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Fig 8: Esquisso do alçado Sul da Casa de Nossa Senhora da Aurora
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burgo constituiu um dos aspectos de maior relevância, caracterizando-o e às suas gentes como parte de um ambiente perfeitamente urbano. Pelo valor patrimonial que apresenta, foi classificada como imóvel de interesse público a 29 de Setembro de 1977. Actualmente recebe visitas ocasionais de grupos de curiosos, que a proprietária faz questão de guiar e clarificar sobre o pouco que é sabido relativamente ao edifício. Tal como grande parte do património construído português, sobre esta obra pesa o facto de nunca ter sido alvo de estudo integrado.
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_Do Estado Actual
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Capítulo I _Do Estado Actual
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Fig 9: Fotografia do 1º Livro das Correias
Cronologia Visual de Fontes Primárias
Relativos ao período entre 1602 e 1715, são sete os títulos de compra de terrenos e casas no Arrabalde por parte da família dos Sá Coutinho Rebello Sotto Maior que
sobreviveram até aos dias de hoje. Em cima, três exemplos de compras entre 1703 e 1704 que parecem indicar os terrenos onde viria a ser construída a Casa de Nossa
Senhora da Aurora
O século XIX encontra-se bastante bem documentado por fontes visuais. De entre elas, o destaque vai para as
representações da frontaria da Casa e da pedra de armas, de 1839 e 1840, e os desenhos para o projecto do jardim
inglês, de 1875. Encontram-se ambos em excelente estado de conservação.
1703
1704
1723
1839
1840
1875
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_Do passado – Fontes escritas e visuais O espólio documental existente, acerca da Casa de Nossa Senhora da Aurora, é bastante vasto e disperso temporalmente. As fontes encontram-se sob a forma de registos escritos e visuais por entre dezenas de publicações e documentos do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, do Arquivo Privado da Casa de Nossa Senhora da Aurora e do Arquivo Distrital de Braga. O arquivo da casa é o mais significativo pela quantidade de documentos que alberga já que a família foi guardando todos os registos da actividade das diversas gerações. Embora exista apenas um documento que refira em concreto a construção de uma parte do conjunto, e outros tantos que mencionem alterações construtivas de pequena dimensão, as fontes existentes permitem uma especulação sustentada daquela que terá sido a história do edifício, assim como da sua contextualização na vila de Ponte de Lima. Para a elaboração deste trabalho serão tidos em conta todos os documentos que, referindo ou não de forma direta o objecto em estudo, permitem enquadrá-lo em épocas específicas, quer de forma imediata, quer por possibilitarem a comparação com objectos semelhantes. Das referências escritas interessam fontes manuscritas, monografias, e qualquer estudo efetuado, quer sobre a Casa de Nossa Senhora da Aurora, quer sobre a casa nobre em Portugal ou sobre a Vila de Ponte de Lima. Quanto a referências visuais, têm-se como válidas as representações de elementos relativos ao conjunto edificado ou à Vila de Ponte de Lima. Da vila destaca-se a carta topográfica de 192711. Tendo em conta o “anonimato” do conjunto, antes do período de edificação da Casa da Aurora, os documentos relativos a essa época são bastante escassos. O destaque vai para um mapa de Amélia Aguiar de Andrade12 onde são identificadas as “propriedades no reguengo régio” em Ponte de Lima. A análise de todas as fontes existentes, diretas ou indiretas, permite a construção de uma linha cronológica documental dividida em três grandes tempos. Um primeiro, desde 1602, até 1715, abrange sete títulos de compra 11 Embora se saiba que existiu uma planta topográfica anterior, de 1911, a de 1927 é o registo topográfico da Vila de Ponte de Lima mais antigo na posse do Arquivo Municipal. 12 ANDRADE (1990), p. 95
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originais de terrenos e casas no Arrabalde, por parte da família dos Sá Coutinho Rebelo Sotto Maior. É exemplo a “Compra de João de Sá Sotto Maior a António Gonçalves Campos, e ao Pe. António de Azevedo Gama de casas, devesas e lugar em que viviam no Arrabalde por 255.000”13 (Anexo II). Estes registos constituem a primeira ligação documentada entre a família que viria a ser responsável pela criação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, e os terrenos onde o edifício ganharia forma. Do segundo tempo, são consideradas as fontes que referem a construção do edifício da Casa de Nossa Senhora da Aurora e sua Capela. A edificação do bloco habitacional não se encontra sustentada por fontes primárias, no entanto, são várias as monografias que referem o conjunto. “Uma e outra foram mandados fabricar em 1714 a 1718, sem embargo da data erradamente retocada a ouro sobre azul na inscrição que coroa a portada.”14 Quanto à Capela, representa a única construção de todo o conjunto, desde a sua fundação, comprovada através de uma fonte manuscrita, a “Obrigação à fábrica da capela de Nossa Senhora de Aurora no Arrabalde, a favor do Desembargador João de Sá Soto Maior”15 (Anexo I), documento original de 1723. Ambas as fontes contextualizam o momento construtivo vivido no início do século XVIII. O período dotado de um legado documental mais vasto diz respeito ao século XIX. Sem data específica, estando apenas referenciado como pertencente ao século XIX, o Arquivo privado da casa guarda o “Autto de vedoria atombação e medição e apregação e comfrontação e demarcação desta caza e quinta de Nossa Senhora d’Aurora sita no Arrabalde de São João de Fora desta villa de Ponte do Lima”16. Este documento foi originalmente transcrito para linguagem actual e suporte digital no decorrer da presente investigação (Anexo III). Constitui uma das fontes mais relevantes para o processo de trabalho já que descreve pormenorizadamente a conformação de todo o edifício à época, algo que, tendo em conta a falta de documentos que atestem intervenções construtivas no objecto, confirma os volumes que estariam já edificados em tal tempo. Também 13 Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora. Ponte do Lima: Compras, nº6. 14 LEMOS (1977), p. 106 15 UM-ADB: Mitra Arquiepiscopal de Braga 16 Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora. Ponte do Lima: Vínculos, nº 49
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no Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora se encontra o “Requerimento e emb.º feito a uma portada e aberta de parede que fez D. Maria Joanna de Sá Coutinho na sua quinta do Arrabalde”17, de 1802, e único registo escrito de alterações feitas ao conjunto edificado. Igualmente relevantes no contexto do século XIX são as fontes visuais. Entre molduras suspensas nas paredes dos salões nobres e folhas de rosto de livros dispersos pelo edifício, a Casa de Nossa Senhora da Aurora conserva ainda três gravuras originais de grande interesse. As duas primeiras, de 1837 e 1840, representam a frontaria da casa e a pedra de armas (Anexo IV e V), respectivamente, e encontram-se num estado de conservação exemplar, permitindo às cores sobressair com a vivacidade que teriam quando foram riscados. Outras duas, e mais uma vez bastante bem conservadas, mostram os desenhos originais feitos para o projecto do jardim inglês anexo à casa, de 1875 (Anexo VI). Tendo em conta a falta de documentação escrita que sirva de base incontestável à especulação sobre as diversas fases construtivas do edifício, a análise das fontes visuais é um processo indispensável já que permite a percepção da adição ou subtracção de elementos num determinado tempo. Visto que a importância patrimonial do conjunto foi resultado da edificação da Casa de Nossa Senhora da Aurora, as construções anteriores praticamente não se encontram documentadas, provavelmente por, na época, não desempenharem um papel fundamental no contexto local. Também o facto de se tratar de um período anterior ao século XVIII torna a distância temporal para o presente ainda maior, o que faz com que a sobrevivência e conservação de documentação seja mais difícil e improvável, quanto maior for o recuo temporal. Como complemento das referências escritas e visuais surge agora o levantamento métrico original, realizado no âmbito desta dissertação, e que, juntamente com o levantamento fotográfico, constituí o documento de maior relevância, produzido até à data, sobre o conjunto arquitectónico em estudo. 17 Arquivo particular da Casa de Nossa Senhora da Aurora. Ponte do Lima: Sentenças, nº19
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38 Levantamento fotográfico: A Envolvente
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_Do presente – Levantamentos métrico e fotográfico As fontes escritas e visuais descritas no ponto anterior da dissertação constituem a prova factual, e por isso mais fidedigna, de intervenções feitas no conjunto. No entanto, e como foi referido anteriormente, nem sempre as alterações construtivas levadas a cabo foram alvo de contratos escritos ou registos, sendo hoje necessário recorrer à análise visual do edifício para a sua identificação. Para esta vertente analítica de observação concorrem dois registos, o levantamento métrico e o levantamento fotográfico, ambos realizados originalmente no decorrer da dissertação. Um e outro definem o ponto de partida do trabalho de investigação já que representam o objecto de estudo tal como existe no presente. Será a complementaridade entre a análise das marcas actuais detectadas nos levantamentos métrico e fotográfico, e as indicações encontradas nos registos escritos e visuais, que permitirá o retirar de conclusões sobre aquelas que deverão ter sido as diversas fases construtivas do conjunto edificado, e quais as alterações que correspondem a cada uma delas. Ambos os levantamentos se encontram, de forma resumida, nas páginas seguintes e completa em anexo. O levantamento métrico, realizado com recurso ao método de triangulação, é composto por cinco secções horizontais (plantas), e cinco secções verticais (cortes e alçados). Para além da representação singular do objecto de estudo, o estudo métrico procura enquadrar a Casa de Nossa Senhora da Aurora na envolvente próxima, reforçando a leitura do contexto urbano em que a mesma se insere. Assim sendo, o redor do edifício é representado em todos os desenhos de arquitectura, dando a perceber, em planta, a dicotomia entre os terrenos baldios e com poucas construções a Nordeste e a massa construída da Vila a Sudoeste, e em secção o contraste entre a frontaria da Casa que dá face à Rua do Arrabalde e a outros edifícios de habitação, e as traseiras enquadradas por terrenos agrícolas e zona de mata. Quanto às plantas, quatro são correspondentes a cada um dos pisos do edifício e registadas a 1,5m de altura em relação à cota base do piso, e uma quinta mostra a cobertura do edifício. Os registos horizontais visam mostrar a disposição dos espaços interiores, clarificando formas de viver o objecto contruído e distinguindo percursos
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Levantamento fotográfico: Os Vãos
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utilizados por senhores e por serventes. É também através da disposição dos compartimentos internos que se dá a compreensão das prioridades sociais de cada época construtiva, sendo em alguns tempos clara a vontade de virar a casa para as necessidades mais primárias dos seus habitantes, e noutros mais forte a intenção de tornar a casa num espaço virado para a recepção de pessoas de fora e o convívio. Numa análise mais detalhada, o estudo métrico das plantas põe a descoberto unidades de medida, modulações e alinhamentos utilizados como base para as construções de cada época, ajudando muitas vezes a entender noções de desenho por parte dos responsáveis pelo traço de cada uma das fases do objecto. Em adição, as diversas espessuras das paredes, registadas também em secção, podem indicar prováveis alterações efectuadas à morfologia do edificado, uma vez que a evolução das técnicas construtivas foi permitindo um adelgaçar das construções. No que diz respeito às secções verticais, para além de serem mais uma ferramenta de confirmação dos aspectos descritos anteriormente, permitem a análise altimétrica do conjunto. Por um lado, possibilitam a compreensão das relações visuais e físicas entre os diversos espaços do objecto, por outro enfatizam a relação directa entre a função e a configuração espacial dos diferentes pisos do edifício. Também estes cortes possibilitam a análise métrica do conjunto, neste caso na vertical, apurando mais uma vez intenções e noções de desenho. Se o levantamento métrico representa o estudo de rigor da Casa da Nossa Senhora da Aurora, o levantamento fotográfico procura uma análise mais intuitiva de marcas do edifício que não são, muitas vezes, passíveis de representação através de plantas, cortes e alçados. Encontra-se dividido em três partes, consideradas as de maior importância para a percepção do objecto: A Envolvente, procura mostrar todos os ambientes que rodeiam o edifício e realçar a dicotomia existente entre o exterior à cerca, urbano, e o interior da cerca, lazer e agrícola. O registo da rua que faz a frente do edifício e que traz o espírito da vila até ao local da casa, contrasta assim com os registos do jardim inglês, dos pátios e dos campos agrícolas existentes no interior da propriedade; Os Vãos, que pela análise da sua construção e dos gradeamentos que os compõem, caracterizam diferentes épocas de intervenção no conjunto. É assim apresentada uma imagem correspondente a cada tipo de vão existente na casa; O
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Levantamento fotográfico: O Objecto
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Objecto, correspondendo estas imagens à representação do edifício, quer pelo exterior, quer pelo interior. Será apresentado ora de um ponto de vista mais afastado, de forma a fazer perceber o aspecto total do conjunto, ora de um ponto de vista mais aproximado, de forma a realçar algum ponto de relevo particular para a compreensão da história do objecto.
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Levantamento Métrico
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Fig 10: Fotografia da Vila de Ponte de Lima
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O Lugar “A villa. Eil-a finalmente, coquette, adoravel, fresca, beijada pelo rio em toda a sua extensão.”18 18 VIEIRA (1886), p. 262. Acedido a 11 de Setembro 2017
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Fig 11: Representação tridimensional da muralha de Ponte de Lima. Realizado pela Universidade do Minho
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_De Ponte de Lima Não se sabe ao certo quais os povos que primitivamente ocuparam o Vale do Lima, nem em que período o fizeram. Destas primeiras ocupações as informações são muito escassas, sabendo-se apenas que “no itinerario de Antonino Pio se appellida Limia a terra que na estrada para Astorga ficava a 19 milhas de Braga, e que não podia por tanto referir-se á provincia em geral, mas a um logar determinado”19 Situada no coração do Vale do Lima, desde o século I que o lugar de Ponte de Lima vem demonstrando a sua importância no território minhoto. Foi a 4 de Março de 1125 que a Rainha D. Teresa outorgou carta de foral à Vila, chamando-lhe nessa altura de Villam nominato loco Ponte. O foral de 1125 faz com que, ainda hoje, a principal bandeira de Ponte de Lima seja o facto de ser considerada a vila mais antiga de Portugal20. É no século I, segundo a liderança do imperador Augusto, que surgem os primeiros registos de ocupação do então Forum Limicorum como ponto estratégico do Alto Minho. Com a passagem da Via Romana nº XIX, ligação entre Braga e Astorga, é construída a ponte romana, tendo funcionado durante muito tempo como único ponto de atravessamento do Rio Lima. Da estrutura deste período restam hoje sete arcos. No histórico de obras da ponte seguiu-se a intervenção do reinado de D. Dinis, no século XIV, que incluía duas torres, uma em cada flanco, inserindo a ponte no sistema defensivo da Vila. Não se verificaram mais obras de grande envergadura nesta estrutura, sendo as únicas alterações entre este período e o que vemos hoje a colocação de merlões – em 1506, ordenada por D. Manuel I –, a destruição das torres defensivas, no século XIX, e várias alterações do pavimento. A ponte sobre o rio Lima tornou-se no maior marco da vila sendo inclusive responsável pelo nome da mesma. “...uma gravura da ponte, como ella existia ainda no seu tempo (...), porque apezar da imperfeição d’esse desenho póde fazer-se uma idéa do magnífico aspecto que até 1857 apresentava esse monumento, talvez único no reino, como typo da 19 VEIRA (1886), p.269. Consultado em 11 de Setembro 2017 20 Tal tem vindo a ser desmentido nos últimos anos por historiadores que garantem que o foral de S. João da Pesqueira terá sido atribuído entre 1055 e 1065, fazendo dessa a verdadeira Vila mais antiga do país.
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56 Fig 13: Fotografia da Torre da Cadeia
Fig. 12: Fotografia da Torre de S. Paulo
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architectura militar da edade média. Constituido por vinte e quatro arcos, dezeseis ogivaes e os outros de volta redonda, terminava a ponte por duas torres quadrangulares ameiadas, uma na extremidade sul, outra no lado norte...”21 A história da ponte, e não fosse ela a principal referência da Vila, é também o melhor indicador daquela que foi a história do lugar Ponte de Lima. “Nenhum elemento da paisagem natural ou humanizada caracteriza de forma tão clara um núcleo urbano como a ponte medieval o faz em relação a Ponte de Lima”22 . Através da análise do que foi referido antes, podemos identificar períodos cruciais no desenvolvimento da vila, entre os séculos I e XIX. No século XIV, durante o reinado de D. Pedro I (1357-1367), têm então início as obras de fortificação de Ponte de Lima. Segundo Mário Barroca, a britagem de pedra para o muro terá sido iniciada a 8 de Março de 1359, muro este que terá começado a ser construído a 3 ou 6 de Julho desse mesmo ano. Entre este período e 1370, já no reinado de D. Fernando I (1367-1383), as obras estariam concluídas. “...o resultado final foi o de um burgo medieval cercado de muralhas e nove torres”23, de planta oval e que se desenvolvia por mais de um quilómetro. A ponte, tal como referido anteriormente, estava contida neste sistema defensivo através das suas duas torres. As muralhas foram mandadas construir pela posição geográfica privilegiada do burgo, tendo tido a sua época de maior importância estratégica durante o reinado de D. João I (1385-1433). Já no século XVIII, tem início a destruição da cerca. “Esvaziada de qualquer sentido militar por estratégias mais recentes, a muralha tinha-se transformado numa estrutura inútil que ensombrava ruas e casas. As suas altas e grossas paredes revelavam-se como uma cómoda fonte de obtenção de pedra bem aparelhada para a construção de edifícios públicos e privados”24. À destruição sobreviveram duas torres e uma porção de pano de muralha entre as duas, que prevalecem até aos dias de hoje: a Torre da Cadeia - nome adquirido pelas funções que desempenhou quase até aos nossos tempos -, também designada como Torre da Porta Nova – pelo troço de muralha que lhe é adjacente, onde estava localizada 21 VIEIRA (1886), p. 267. Consultado em 20 de Junho 2017 22 ANDRADE (1990), p. 13 23 Disponível em http://www.cm-pontedelima.pt/pages/533 24 ANDRADE (1990), p.14
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Fig 14: Planta do burgo no início do século XVIII. Por Amélia Aguiar Andrade
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uma das portas de entrada na cerca, e que permanece também até hoje; e a Torre de São Paulo onde hoje se veem placas assinalando o nível onde chegaram as cheias que mais afectaram a Vila, nos tempos antes da barragem: “Aqui chegou o rio pelo risco”25. Também neste local se manteve um troço do pano de muralha já que funcionava como parede de meação a habitações que foram sendo construídas e interessava à vila pela sua capacidade de impedir a entrada das cheias no maciço construído. Deste período interessa particularmente perceber aquele que foi o desenvolvimento territorial de uma localidade que começou por se implantar num local de passagem estratégico; onde surgiu um burgo que pela sua localização e capacidade comercial foi fortificado; e que séculos mais tarde, pelo crescimento verificado intramuros, se viu obrigado a destruir as cercas e a espalhar-se no território em torno. Na fase em que tem início a expansão urbana do burgo para os arrabaldes26, Ponte de Lima vive um momento particularmente próspero da sua história, no seguimento daquilo que se passava um pouco por todo o país27. A primeira metade do século XVIII, altura em que vigorava o reinado de D. João V (1706-1750), caracterizou-se no território Limiano por um forte crescimento económico. O alvo mais particular desta economia em ascensão acabaria por ser a encomenda arquitectónica, que podemos dividir em dois grupos: A encomenda pública e a encomenda privada. Se por um lado as obras públicas se encontram bastante bem documentadas28, sendo o seu estudo e interpretação possível com 25 Inscrição gótica que se pode ainda hoje ler na fachada da Torre de São Paulo que dá a face ao rio Lima 26 A expansão criou três arrabaldes: O de Santo Antonio, o de S. Joao e o de Alem da Ponte. Segundo CANDIDO, Alfredo – Casas e famílias nobres de Ponte de Lima, in Almanaque Ilustrado “O Comércio do Lima”. Ponte de Lima, 1924. Nº6, p. 271 27 O reinado de D. João V ficaria conhecido pelas suas tentativas de enaltecer a prosperidade portuguesa no estrangeiro, fazendo o país passar como uma potência internacional. Para tal contribuiu inegavelmente a descoberta de ouro no Brasil e o sucessivo período de significativa encomenda arquitectónica que se verificou pelo país. Merecedoras de destaque são obras como o Palácio de Mafra ou o Aqueduto das Águas Livres. 28 Ver a este respeito PAIVA, Maria Amélia da Silva – Os ofícios mecânicos e a encomenda arquitectónica patrocinada pela câmara de Ponte de Lima no século XVIII, 2006-2007
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Fig 15: Fotografia da Rua do Arrabalde
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relativa facilidade, o mesmo não se verifica relativamente às obras civis que, por falta de regulamentação, foram construídas sem que tenhamos acesso a documentos que permitam sequer datar com precisão a maior parte delas. A Câmara, como representante máximo do poder público local, centrava as suas preocupações na manutenção das infraestruturas existentes, promovendo questões como a acessibilidade e a segurança. De entre as intervenç


